segunda-feira, 16 de dezembro de 2013


Regressámos com a luz do poente; as nuvens rubras e cor de âmbar entornavam os seus derradeiros matizes sobre o Funchal, doirando o mar na baía. Nasceu a Lua antes que deixássemos a estrada costeiro; e que bela parecia reflectir nas águas cintilantes a sua claridade branca e suave! (...) a Lua na Madeira (...) quando sobe, dá uma luz alvacenta, mas quando está em todo o seu fulgor, em vez dos frios raios azuis do luar britânico a claridade é perfeitamente amarela e tão brilhante ...

Isabella de França, 1853, p. 151

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

lágrimas de pérolas ....


 -A última noite do ano traz uma certa nostalgia...
- Interessante, estava a pensar o mesmo: não a senti chegar.
- As nuvens ainda estão pouco densas, os passos não se ouvem: já por aqui andava, quando chegou. Mas, São Silvestre, não fique de pé por cerimónia, desloque a sua nuvem e sente-se, por favor!
Maria referiu então que a última noite do ano deveria constituir uma fronteira entre o passado e  o futuro, uma possibilidade de arrependimento e de esperança para todos. O Pai Natal tentou disfarçar o arrependimento pelas suas inusitadas férias e disse-lhe:
- Tenho a sensação de que está triste.
Maria lembrou-se ainda mais da Atlântida, engolida pelas águas. Não conteve as lágrimas, que eram de nostalgia e misericórdia, já que a Humanidade deixara perder o divino que há em si e, apesar do castigo, não se tinha emendado. Afinal ... não eram lágrimas, mas sim pérolas autênticas que brotavam do olhos de Maria ... e ... uma delas ... foi cair no preciso local onde a Atlântida se situara.
- Veja, Maria, está a nascer uma ilha!
- É a Madeira, a futura Pérola do Atlântico!

António Castro, 2008, in Leituras Soltas, pp 20-21.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

um pedaço do nosso passado .....



 Ninguém, em verdade, viaja para uma ilha.
As ilhas existem dentro de nós, como um território sonhado, como um pedaço do nosso passado que se soltou do tempo...
Mia Couto
 
 
 
 
( foto de Henrique Freitas )


 
 

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

porque em Dezembro já se é mais ilha ......


Escutavam-se na manhã os ecos

das canções

de Natal.

 

Sonhos breves sobrevoavam

o casario

e a árvores acordavam

enfeitadas

nas nuvens que cobrem

os presentes.

 

 Na avenida solitária

mistura-se o silêncio

com os gritos de alegria

na voragem

de um rosário de descobertas

onde as surpresas

são as certezas

do dia.

 

 
Uma amnésia inundou os becos

e abraçou

os tectos e as calçadas.

 

 
O povo com o tempo esqueceu-se

de ser pobre

nessas madrugadas.

 

 

José António Gonçalves

 in "Lembro-me desses Natais"