terça-feira, 29 de outubro de 2013

[Daqui] vejo sempre a minha ilha


[Daqui] vejo sempre a minha ilha. Serena. Tranquila. Azul. É mar. A minha ilha é da cor do mar. Azul intenso, brilhante, estonteante nos dias de sol. Azul-escuro, quase cinzento, tão cinzento que se confunde com o calhau, nos dias encobertos. Mas é azul. Sempre azul e cheira a maresia, a imensidão, a caminho por desbravar... a ida ... a vontades ... a sonhos ....

A minha ilha nem sempre é minha, é de todos: dos estrangeiros que, desde criança, de mão dada com a minha avó, aprendi achamar “ingleses”. Sim. Os nossos turistas eram todos ingleses...e eu acreditava. A minha avó não mentia e eu nem sabia de onde vinham nem tão pouco porque nos visitavam. Não sabia, mas aprendi.

Aprendi:

- primeiro, a língua destes visitantes de Além- Mancha e tive pena de não a poder ensinar à minha avó. Ela não sabia ler nem escrever. E depois visitei a sua pátria: a Grã-Bretanha. A Ilha de sua Majestade Elisabeth II... tão imensa, tão cosmopolita ... e aprendi a amar Londres [de onde não se vê o mar].

- que as ruas por onde todos os dias passo, que as habitações que caracterizam a cidade onde nasci, que o mobiliário que ainda hoje decora muitas das nossas residências, que os jardins onde me escondia para namoriscar, guardam em si a marca dos britânicos que durante o século XIX se estabeleceram na capital funchalense e se dedicaram ao comércio do Vinho da Madeira projectando o saboroso líquido, mas igualmente o nome da minha terra além mar.

- que o bordado da Madeira diz-se ter sido trazido por Mrs Phelps e, embora a minha avó passasse tardes inteiras a bordar, insistindo pacientemente para que eu aprendesse nem que fosse afazer uns garanitos, nunca consegui.

- que as quintas madeirenses pertenciam quase todas aos ingleses e que a casinha de prazeres é mais um toque anglístico que ainda perdura na Pérola do Atlântico. Aprendi que a 1ª. Fábrica de cerveja pertenceu a Henry Prince Miles e que a 1ª fábrica de manteiga a John Blandy. Que o carro de bois foi ideia do Major Buckley e que o carro de cestos, que ainda hoje desce o caminho do Monte, foi projectado por Russel Gordon.

- que a fábrica, onde durante toda a minha infância e juventude, se produzia açúcar pertencia à família Hinton e que a família Blandy era a dona da casa onde vivia a minha avó e de todas as outras casas das redondezas.

- que o cônsul Henry Veitch mandou construir não apenas a casa que se destaca na margem da Ribeira de Santa Luzia como também a Quinta Calaça e a Quinta do Jardim da Serra, onde cultivou chá; e que o Reid’s Hotel é o sonho de William Reid tornado realidade. E mais. Muito mais. Sim, porque o tamanho da ilha é pequeno mas a sua grandeza não tem dimensão. E sobretudo aprendi a amar o (meu) recanto ... tão cheio de encantos ...

E reencontrei-te. Aqui. Na nossa ilha … e (des)fez-se o singular … (re)fez-se casa … e (a)fez-se azul… [ do mar e dos teus olhos]

 

Cláudia Faria

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