terça-feira, 15 de outubro de 2013
ISTO DE SER ILHA, ESTA ILHA
Quem nasceu numa ilha conhece muito bem o mundo. Ali, a redondura da terra é uma espécie de cosmos, com tudo o que é preciso, na versão casa de bonecas. Na ilha, a natureza vive ao lado do nosso prédio e deixa-nos participar da sua vida. As festas e as desgraças. As alegrias e as dores.
Quem nasceu numa ilha, conhece todos os lados da lua, compreende a dureza do basalto, sabe que é capaz de construir as casas na varanda da serra, de pegar na enxada para desenhar os poios, de ir, quando o tempo é de ir e de lutar, quando o tempo é de ficar.
Nós, os que nascemos numa ilha, sabemos o que é viver lado a lado com o que compõe o barro que somos: com o ar que nos entontece os sentidos quando nos grita nas janelas ou, na bonança do verão, nos sopra ao ouvido canções de embalar; com a pedra dura da montanha que empareda a luz das planuras mas que nos biomba do vento norte que nos gela as mãos; com o fogo que, às vezes, bravo, nos enfogueira o quintal mas que nos cura as terras do cansaço das sementes; com a água que se despenha dos rochedos e nos enverdece as florestas e nos limpa os olhos dos nevoeiros.
Quem nasceu numa ilha, sabe que o mar traz o azul na ponta dos dedos e que, por isso mesmo, é um lugar de amanhãs e de dias felizes. E sabe ouvir os segredos da maré cheia e os silêncios do canto rolado dos calhaus. Sabe a força que tem, porque a sua força é feita de água e de céu, é feita de pedra e de esperança, é feita de luz.
Quem nasceu numa ilha, nesta ilha, sabe que a coragem é a vingança ilhoa contra o medo, que o trabalho é a luta ilhoa contra a pequenez, que a esperança é o único meio de não perder o pé.
Quem nasceu numa ilha, nesta ilha, sabe que tem o destino na mão, porque algures, no seu peito, bate, azul, o coração do mar.
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